A Indústria da Moda Está a Matar o Planeta

Quando era pequena a minha avó ensinou-me a coser botões e fazer carteirinhas e bolsinhas com pedaços de tecido de feltro colorido. Era das minhas brincadeiras preferidas em criança. Lembro-me que na caixa de costura da minha avó havia um objeto muito estranho: tinha o formato igualzinho a um ovo, mas era feito em madeira maciça. Quando perguntei à minha avó para que servia, riu-se e disse-me: “Antigamente, quando uma meia se rompia, punha-se este ovo dentro da meia para ser mais fácil encontrar o buraco e remendar. Não é estranho como se vivia antigamente? Hoje, se uma meia se rompe vai para o lixo e compra-se outro par.”. A minha avó não podia ter mais razão. A mentalidade consumista fast fashion como se encara a moda é preocupante e as consequências são arrasadoras – a vários níveis.

A indústria da moda é a quarta indústria mais poluente do mundo no que toca à emissão de gases responsáveis pelo efeito de estufaultrapassada unicamente pelas indústrias da eletricidade, do aquecimento, da agricultura e do transporte rodoviário. Muitos painéis de discussão e artigos utilizam antes o “facto alternativo” que “a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo”, dito famosamente por Eileen Fisher, magnata do mundo da moda. Na altura em que esta fake news foi difundida, não havia de facto nenhuma investigação científica alternativa para se contrapôr – mas agora há. Foi publicado já este ano o primeiro estudo que efetivamente investiga os impactos ambientais dos setores industriais do vestuário e calçado, segundo o qual, combinados, estes dois setores são responsáveis por 8% das emissões de gases de efeito de estufa. Esta percentagem corresponde à quase totalidade do impacto climático da União Europeia.

É interessante observar que, para a produção de peças de vestuário, é preciso recorrer a todas as indústrias supramencionadas: as fábricas funcionam a eletricidade; algodão é um produto agrícola; parte do transporte da roupa é feito por vias rodoviárias; polyester é feito de plástico – um produto derivado do petróleo. Portanto, diminuindo a emissão de gases responsáveis pelo efeito de estufa associados à indústria da moda, estar-se-ia a reduzir as emissões das quatro indústrias mais poluentes do planeta. Como Alden Wicker, jornalista freelancer e autora do blogue EcoCult (que vale muito a pena visitar), salienta: a moda tem o poder de salvar o mundo.

O processo de fabrico de roupa tem implicações devastadoras para o meio ambiente, e, no entanto, enquanto consumidores, tratamos continuamente vestuário como descartável – sobretudo na última década. Se o cenário se mantiver, o estudo já mencionado (Measuring Fashion) prevê que o impacto climático da indústria de vestuário aumentará 49% até 2030 – esta indústria sozinha será responsável pelo equivalente à emissão atual anual de gases de estufa dos Estados Unidos.

 

Implicações ambientais da indústria da moda

 

O procedimento de produção têxtil que resulta naquilo que conhecemos como moda é tudo menos simples. Envolve longas e variadas cadeias de produção, matéria-prima, manufaturas têxteis, construção de peças de roupa, transporte, venda, uso e, por fim, está na hora de deitar no lixo as peças de vestuário já gastas ou estragadas. No decorrer deste processo, há inúmeros poluentes que entram em ação: os pesticidas usados no cultivo do algodão, as tinturas tóxicas usadas nos tecidos, as enormes quantidades de desperdício de tecido, bem como a roupa que velha é inevitavelmente deitada fora – e também a quantidade extravagante de recursos naturais gastos para a extração, cultivo, colheita, processamento, manufaturação e transporte destes produtos.

 

Algodão

O algodão pode ser uma pequena planta, mas é um ávido consumidor de água. É também um dos cultivos mais quimicamente dependentes do mundo.

A devastação causada pelos químicos tóxicos usados na agricultura para o cultivo do algodão é mostrada no documentário The True Cost. As consequências incluem a morte de um agricultor americano com tumor cerebral, bem como crianças indianas filhas de agricultores de algodão nascidas com graves deficiências.

Grande parte do algodão cultivado pelo mundo é modificado geneticamente para ser mais resistente a pestes de lagartas associadas a esta planta, assim evitando o uso de pesticidas. Isto, no entanto, leva ao surgimento de ervas daninhas mais resistentes que requerem tratamentos com pesticidas mais fortes, prejudiciais ao gado e aos seres humanos.

Optar pelo algodão orgânico pode parecer uma escolha inteligente, mas continua a ser preciso mais do que 10 mil litros de água para fazer uma t-shirt.

 

Tingimento

Todos os anos, uma industria global consome triliões de litros de água fresca de forma irreversível – a indústria de tingimento têxtil. Esta água é contaminada com quantidades massivas de químicos e é depois despejada, não tratada, nos rios que, por sua vez, levam este conteúdo tóxico para o mar – espalhando-se pelo resto do mundo. A China, segundo o Yale Environment 360, é responsável por quarenta porcento desta contaminação mundial.

O rio Citarum, na Indonésia, é considerado dos mais poluídos do mundo, o que se deve em grande parte às fábricas de indústria têxtil sediadas nas suas margens: 68% das infraestruturas industriais localizadas nas margens do Citarum produzem têxteis, despejando os químicos resultantes, nomeadamente mercúrio, chumbo, arsénico, nonilfenol, neste rio. A Greenpeace descreveu esta descarga como “altamente cáustica, queimará a pele humana ao entrar em contacto direto com a corrente e terá um impacto grave (muito provavelmente fatal) na vida aquática nas proximidades imediatas da área de descarga.”.

 

Transporte

A maioria das grandes multinacionais de vestuário podem ter sede nos Estados Unidos e na Europa, mas mais de sessenta porcento da roupa produzida mundialmente é manufaturada em países em desenvolvimento, sendo a Ásia o principal continente exportador.

Pode não se saber que percentagem dos 9 mil navios cargueiros do mundo se devem a peças de vestuário, no entanto, sabe-se sim que um só navio pode produzir tantos poluentes associados ao cancro e à asma como 50 milhões de carros num ano.

 

Poliéster e nylon

O poliéster e o nylon são derivados do petróleo e, por isso, não são biodegradáveis. São materiais naturalmente prejudiciais à natureza. Produzir estes tecidos requer grandes quantidades de energia e, para além disso, o nylon emite óxido nitroso – um gás producente do efeito de estufa 300 vezes mais impactante no aquecimento global do que o dióxido de carbono.

O ecologista Michael Browne examinou resíduos ao longo de linhas costeiras pelo mundo. Encontrou pequenos sedimentos sintéticos consistentemente perto de escoações de esgotos. Dessas microfibras, oitenta e cinco porcento eram manufaturadas e condiziam com os materiais usados em vestuário, como nylon e acrílico. A ser lavada, uma só peça de vestuário pode soltar até 1900 fibras que acabam em oceanos e costas por todos os cantos do globo.

 

O poder de cada um

Cabe, agora, a cada pessoa – enquanto consumidor – exigir mais e melhor das marcas e tomar decisões informadas. Movimentos como o slow fashion surgem destes mesmos consumidores: o objetivo é mudar a mentalidade em relação às peças de roupa enquanto itens descartáveis, bem como ser rigoroso com a produção das mesmas.

 

Maria Leonor Carapuço

 

Este artigo teve como principais fontes:

Fast Fashion Is the Second Dirtiest Industry in the World, Next to Big Oil de Glynis Sweeny

Now we know! Fashion is the 4th most polluting industry de Alden Wicker 

– » The Environmental Costs of Fast Fashion de Patsy Perry

 

 

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